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terça-feira, 11 de outubro de 2011

NOSSA SENHORA "APARECIDA"


Entre os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo corre o Rio Paraíba. Em meio às suas curvas há um trecho onde seu caminho forma um grande “M”, muito visível do alto de uns morros que se erguem por perto.
Na segunda quinzena de outubro de 1717 o Conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, nomeado Governador da Capitania de Minas Gerais e São Paulo, veio tomar posse da terra de Piratininga. Depois da posse partiu para Minas Gerais, devendo passar por Guaratinguetá. A Câmara local tomou as providências para a recepção ao Governador. Foram enfeitadas as casas e convocados os pescadores para que arranjassem muito peixe para a caravana do Conde.
Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso eram alguns dos pescadores responsáveis pela pesca. Os três estavam juntos em suas canoas. Começaram a lançar as redes no porto de José Correa Leite e foram rio acima, até o porto de Itaguaçu. Foi uma longa distância percorrida, mas não pegaram um só peixe. Nesse porto, onde o Paraíba forma o “M”, João Alves lançou sua rede de arrasto, certo de que ela não voltaria vazia. Para surpresa dos três, no fundo da rede havia um objeto de cor escura, com pouco mais de um palmo e aparência de uma pequena imagem. Lavada, viram uma escultura, representando Nossa Senhora da Conceição. Infelizmente, a imagem não tinha cabeça. Atirada novamente a rede e arrastando-a no fundo do Rio, João Alves conseguiu, com muita alegria, encontrar a cabeça da estatueta.
Talvez a pesca do corpo e da cabeça da mesma imagem tenha sido o primeiro “sinal” de algo de extraordinário para
João Alves. Ele tomou os pedaços, corpo e cabeça da imagem, envolveu cuidadosamente em um pano e guardou. Até então não haviam pescado peixe algum. Mas não desistiram. Lançaram novamente a rede e... que maravilha! Em pouco tempo pescaram tão grande quantidade de peixes que ficaram com medo de naufragar. Por isso retornaram às suas casas admirados. Seria esse o segundo “sinal” de algo estaria por suceder?
A imagem era, de fato, de Nossa Senhora da Conceição, medindo, no total, 40 cm de altura, feita de terracota, uma argila que, depois de modelada, é cozida em forno apropriado. Era talhada em estilo rústico, com traços marcantes de piedosa simplicidade, de cor escura, devido ao longo tempo em contato com o fundo lamacento do rio Paraíba. Hipoteticamente, ela teria, originalmente, uma policromia (uso de várias cores), como era costume na época, mas não há documentos que comprovem. Quando foi pescada, o corpo estava separado da cabeça e, muito provavelmente, sem a policromia original, devido aos anos em que esteve mergulhada nas águas e no lodo do rio. A cor acanelada, com que hoje é conhecida, deve-se ao fato de ter sido exposta, durante anos, ao picumã (fuligem) das chamas das velas e dos candeeiros. Seu estilo é seiscentista (século XVII), como atestam alguns especialistas que a estudaram, entre os quais o Dr. Pedro de Oliveira Ribeiro Neto, os monges beneditinos do mosteiro de São Salvador, na Bahia, Dom Clemente da Silva Nigra e Dom Paulo Lachenmayer. Em 1978, após o atentado que a reduzira em quase duzentos fragmentos, foi encaminhada ao Prof. Pietro Maria Bardi - na época diretor do Museu de Arte de São Paulo - que a examinou, juntamente com o Dr. João Marinho, colecionador de imagens brasileiras. Foi totalmente reconstituída pela artista plástica Maria Helena Chartuni, na época, restauradora do Museu de Arte de São Paulo.
Ainda conforme estudos dos peritos mencionados, a imagem foi moldada com argila paulista, da região de Santana do Parnaíba, situada na Grande São Paulo. O mais difícil foi determinar o autor da pequena imagem, pois não está assinada ou datada. Assim, após um estudo comparativo, os peritos chegaram à conclusão de que se tratava de um escultor, discípulo do monge beneditino Frei Agostinho da Piedade, e também seu colega de Ordem, Frei Agostinho de Jesus. Caracterizam seu estilo a forma sorridente dos lábios, o queixo encastoado, tendo, no centro, uma covinha; o penteado, flores em relevo, nos cabelos, broche de três pérolas na testa e porte empinado para trás. Todos estes detalhes se encontram na Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, e, por isso, concluíram os peritos, Dom Clemenente da Silva Nigra e Dom Paulo Lachenmayer, que a Imagem foi esculpida pelo monge beneditino Frei Agostinho de Jesus, ceramista sacro do período seiscentista brasileiro, que viveu entre 1600 e 1661.
Chegando ao Porto, Filipe Pedroso levou a imagem para sua casa, perto de Lourenço de Sá, onde a conservou por uns seis anos, mais ou menos. Já no dia seguinte, Filipe iniciou a construção de um oratório onde se colocaria a imagem. Depois, passando para a Ponte Alta, continuou com ela, em sua casa, por mais uns nove anos. Passou a morar no Itaguaçu, onde deu a imagem a seu filho Atanásio Pedroso.
Atanásio, então, fez uma capelinha e, sobre um altar de pau, colocou a imagenzinha da Senhora. Indício de que a devoção à imagem da Senhora começava a tomar conta das pessoas foi a construção da capelinha para abrigá-la.
Aí, todos os sábados, a vizinhança se juntava para cantar o terço e mais devoções diante daquela a quem, por não saberem o nome, passaram a chamar simplesmente de “Aparecida”. Foi nessa capelinha que fatos estranhos e prodigiosos começaram a acontecer.
Em certa ocasião, o povo estava reunido e rezando. Duas velas de cera da terra iluminavam a Senhora. A noite era serena e sem vento. Repentinamente, as duas velas se apagaram. Silvana da Rocha correu para acendê-las. Mas, sem a intervenção de qualquer um deles, as velas se acenderam novamente. Este foi o primeiro prodígio e o terceiro “sinal” de que algo mais estava para acontecer. Esses fatos provocaram grande alarde e a fama da pequena imagem começou a se espalhar rapidamente. O vigário da vila, Padre José Alves Vilela resolveu, então, oficializar o culto, construindo uma capela maior. Em 05 de maio de 1743, o Bispo do Rio de Janeiro concedeu autorização exigindo a construção com material durável e proibindo o pau-a-pique. Recursos não faltaram, pois já era grande o afluxo de pessoas.
Entre os inúmeros devotos de Nossa Senhora Aparecida, crentes de seu poder de sua magnanimidade, que se ajoelharam aos seus pés, conta-se que esteve o próprio Dom Pedro, quando de sua viagem a São Paulo, em 1822.
Afirma-se que ele fez as suas preces e o voto de proclamar Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, se tudo acontecesse segundo seu desejo, em São Paulo. Deve-se assinalar que a proclamação oficial da Independência do Brasil teve a data de 08 de setembro de 1822, dia da Solenidade da Natividade de Nossa Senhora. De fato, Dom Pedro declarou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. A construção da nova e linda capela se deu em pouco tempo, assim como rapidamente se espalharam os prodígios e a fama de Nossa Senhora Aparecida. Ao longo das paredes da nova capela, foram sendo afixadas as lembranças de curas e milagres.
No ano de 1868, dois ilustres romeiros vieram visitar a Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: a imperatriz, Princesa Isabel, e seu esposo, o Conde Dom Luiz D´Eu. A velha Capela, situada no alto do Morro dos Coqueiros, revestiu-se de uma nova pintura. A festa de Nossa Senhora era celebrada, então, unicamente no dia 08 de dezembro. A notícia da visita das Altezas Imperiais foi recebida com muito entusiasmo. A Princesa Isabel e o Conde D´Eu assistiram ao último dia da novena e à própria festa de Nossa Senhora, nos dias 7 e 8 de dezembro de 1868.
Era costume a Mesa Administrativa nomear os festeiros para o ano seguinte da festa e, devido à presença singular da Princesa e do Conde, houve sessão da Mesa no próprio dia 08 de dezembro de 1868, deliberando, por unanimidade, as Altezas Imperiais como festeiros para o ano de 1869. Assim, a Princesa Isabel e o Conde D´Eu foram os últimos festeiros da festa tradicional de Nossa Senhora, pois a partir de 1869 a própria Mesa Administrativa encarregou-se de faze-la.
Está registrado no jornal Santuário de Aparecida, de 12 de fevereiro de 1921, que Dona Isabel e o Conde d’Eu chegaram à Capela às seis horas da tarde para assistirem à novena da festa de Nossa Senhora. Vieram a cavalo com uma grande comitiva. Dizem que Dona Isabel deu naquela ocasião a Nossa Senhora um riquíssimo manto com vinte e um brilhantes no valor de 18 contos de réis. A Princesa foi recebida no alto da colina, solenemente, por crianças vestidas com todo o mimo, que a saudaram com pétalas de rosas. A Princesa entrou na Igreja, orou e na Praça foi saudada por um escravo de nome Antônio, que ficara aos serviços do Padre Joaquim Pereira Ramos e que tocava perfeitamente o trombone, daí ser conhecido por Antonio trombonista. A Princesa Isabel esteve ainda mais uma vez em Aparecida, no dia 06 de novembro de 1884.
A história de Aparecida tem uma outra ligação profunda com a Princesa Isabel. No ano de 1857, um escravo fugiu de Curitiba e veio para Bananal, cidade de São Paulo, sendo preso e algemado. Ao passar pela Capela de Aparecida, pediu ao feitor licença para ver Nossa Senhora Aparecida. O feitor, renitente, negou - porém, condoído, consentiu. E ao fazer o seu pedido de clemência, de liberdade, o escravo se ajoelhou e ergueu os braços algemados e fez a prece - e a corrente caiu, tinindo no chão! Foi um dos primeiros milagres conhecidos de Nossa Senhora Aparecida a correr pelas vilas vizinhas e pela província. Hoje está pintado no forro da Basílica Nacional, em artístico trabalho de madeira, feito em estilo da época, pelo artista Chico Santeiro, para o “Museu Nossa Senhora Aparecida”.
Uma grande corrente se encontra na parede da Sala dos Milagres. Quando aconteceu o milagre da libertação do escravo Zacarias, todos os escravos tinham a esperança, também, de serem libertos. Um outro escravo conseguiu autorização do feitor para entrar na Capela. Rezou e fez o mesmo pedido, mas a corrente não se abriu. Ele rezou tristemente e cheio de Fé. Levantou-se e descendo a antiga rua da Calçada, hoje ladeira Monte Carmelo, viu a comitiva da Princesa. O escravo ajoelhou-se e pediu a bênção e misericórdia. Dona Isabel ordenou, então, que o escravo fosse posto em liberdade. As algemas cairam pela segunda vez diante da Capela, por aquela que seria Redentora de todos os escravos do país.
Nas Atas da Capela de Nossa Senhora Aparecida, de 04 de janeiro de 1750, há o registro de um órgão, um relógio de parede, uma caldeirinha de cobre e o escravo Boaventura, mulato, com cerca de 44 anos, organista. Esse registro indica que o primeiro organista da Capela Nossa Senhora Aparecida foi um escravo. Quando houve o milagre do escravo descrito acima, o capanga que o acompanhava pediu ao Capelão de Nossa Senhora Aparecida, Padre Antonio Luiz de França Reis, que lhe desse um atestado sobre o acontecido e o levou ao fazendeiro em Curitiba. Este surpreendido, escolheu mais dois escravos, Lúcia Belin e João Belin e fez dos três presente a Nossa Senhora Aparecida. Zacarias, que foi o milagrosamente salvo, Lúcia e João viveram longos anos neste local, como descreve Padre Oto Maria em “Pontos Históricos com relação a Nossa Senhora Aparecida”. O mesmo Padre Oto Maria no “Santuário de Aparecida” de 14 de janeiro de 1922, registra que se deliberou “em contratar José Pires de Almeida para servir de organista nas missas que se celebravam nos dias de sábado em louvor a Nossa Senhora Aparecida, mediante a gratificação de dois mil réis, quando não possa ser por cada uma das ditas missas visto que o escravo da mesma Capela João Belin” e mais adiante “não poder continuar como até aqui tocando órgão”. Segundo relatos, João Belin tocava a ladainha de Nossa Senhora com um dedo da mão direita, enquanto a esquerda fazia ligeiro acompanhamento. Depois era o contrário: apenas tocava o acompanhamento com um só dedo enquanto que a mão direita fazia nascer os mais belos acordes.
Como não parava de aumentar o número de romeiros, julgou-se necessário a construção de um templo maior.
Supervisionada por Frei Monte Carmelo, em 08 de dezembro de 1888 foi inaugurada a Igreja por Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, Bispo de São Paulo, onde é hoje a “Basílica Velha”.
No ano de 1894, chegou a Aparecida um grupo de padres e irmãos da Congregação dos Missionários
Redentoristas, para trabalhar no atendimento aos romeiros que acorriam aos pés da Virgem Maria para rezar com a Senhora “Aparecida” das águas.
O jornal Santuário de Aparecida, de 19 de novembro de 1921, registrando o falecimento da Princesa Isabel, diz que ela era “muito piedosa, um exemplo vivo para seu povo. Ela também foi muito devota de Nossa Senhora Aparecida. Aqui esteve uma vez, cumprindo nessa ocasião uma piedosa promessa a Nossa Senhora; doou também uma coroa de ouro, em 1884. A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi coroada, no dia 08 de setembro de 1904, por Dom José Camargo Barros, com a coroa doada pela Princesa, recebendo, também, o manto azul-marinho. Consta que a coroa de ouro ofertada era me forma de globo com uma cruz, toda cravejada de brilhantes”. Decreto papal de 29 de abril de 1908 concedeu à igreja de Aparecida o título de Basílica. A consagração de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil ocorreu em 31 de maio de 1931, em uma celebração que reuniu, já naquela época, um milhão de pessoas. Os padres redentoristas, responsáveis pelo Santuário Nacional de Aparecida, foram os grandes animadores da construção da Basílica que hoje abriga a imagem da Senhora. Em 1936 começaram estudos para a construção de uma nova sede do Santuário. Em forma de cruz e entrecortada por um “X”, a planta foi aprovada em 1949. Desde essa data até hoje, operários se revezam na construção. O conjunto total abrange 18.000 m2 de área coberta. 
O projeto grandioso teve início em 1955, com a concretagem da nave norte. Construído em forma de cruz, possui capacidade para abrigar 45.000 pessoas e possui uma infraestrutura especial para o atendimento de romeiros que procuram o lugar durante todo o ano para prestar culto à Padroeira. Em 1967, ano da comemoração do jubileu dos 250 anos do aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o Papa Paulo VI ofertou ao Santuário Nacional da Padroeira do Brasil uma Rosa de Ouro, que era um presente oferecido pelo Papa em sinal de particular estima e para distinguir personalidades que prestavam relevantes serviços à Igreja, ou para honrar cidades, ou ainda para realçar Santuários extraordinários, como centro de grande devoção. Essa Rosa era artisticamente elaborada segundo o estilo da época. A entrega da honraria aconteceu na manhã do dia 15 de agosto daquele mesmo ano, com a presença de diversas autoridades civis e religiosas, entre elas o presidente Artur da Costa e Silva. Atualmente, a Rosa de Ouro encontra-se exposta na Exposição Rainha do Céu, Mãe dos Homens: Aparecida do Brasil no Museu Nossa Senhora Aparecida, no 1º andar da Torre Brasília.
No dia 04 de julho de 1980, o Papa João Paulo II, em missa celebrada no Santuário, consagrou a Basílica, que recebeu o título de Basílica Menor.
Hoje, multidões de peregrinos chegam para visitar aquela que um dia “apareceu” das águas do Paraíba. Apareceu para ficar para sempre.





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